Monday, September 10, 2007

China, China!

China walks down the steps towards Martim Moniz Square in Lisbon, Portugal. As she passes by, children cry out: "China, China!". China will fly. Fly away by dawn. All she wants is to be happy. But China drinks her own poison. She drinks it to the last drop. Sometimes the air seems to be laden with evil and purgatory but a child's playground.

Esta é a sinopse de "China, China", o novo filme de João Rui Guerra da Mata e João Pedro Rodrigues, realizador de "O Fantasma" e "Odete". Estreia a 13 de Setembro em Portugal.

Diário de "Blindness"


Fernando Meirelles está a escrever um diário virtual sobre a rodagem de "Ensaio Sobre a Cegueira" (Blindness), onde descreve com humor os episódios que têm marcado o projecto. Vale a pena ler, nem que seja para concluir que, muitas vezes, um realizador não é um ser omnipotente e autoritário a quem toda a máquina obedece. As inseguranças e as expectativas por vezes frustradas também fazem parte da profissão.

Sobre a contracena entre Mark Ruffalo e Julianne Moore: "Com a pausa, a Julie perdeu um pouco a emoção, mas em compensação o Mark foi encontrando seu tom. Meia hora depois da primeira tomada tudo já estava mais técnico, mais preciso, ainda que já não tão vivo. Paramos então com a minha promessa aos atores que depois de montada a cena, se precisássemos, refilmaríamos. A Julie implorou para não ter que passar pela mesma coisa novamente."

Sobre as origens do projecto: "Em junho recebi um e-mail de um produtor canadense, que eu não conhecia, me perguntando se eu já havia lido José Saramago e se teria interesse em uma adaptação de um dos seus romances. Para ser simpático respondi: manda. Três dias depois, chegou em um envelope com um roteiro em inglês. Era Blindness, o Ensaio Sobre a Cegueira.Devem existir milhares de diretores no mundo. O que fez com que aquele texto viesse cair justamente em minhas mãos? Essas coincidências são assustadoras."

Sobre Saramago: "Apesar de feliz pelo encontro, aquela noite me deixou apreensivo. Por ter sempre recusado a vender os direitos de seus livros para adaptação (“cinema destrói a imaginação”) achei que ele não estivesse interessado no filme.Para meu desespero, estava enganado. Ele está interessado sim, perguntou várias vezes quando ficaria pronto ou quando poderia assistir algo. Depois do nosso encontro, me mandou um e-mail dispondo-se a colaborar caso eu precisasse e dizendo-se totalmente confiante em relação ao nosso trabalho. Antes não estivesse tão confiante assim, o risco de uma grande decepção seria menor."

Sunday, September 9, 2007

A Violência dos Inocentes: "Black Sheep", a crítica


Terminou hoje a primeira edição MoteLx, o primeiro Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, que decorria no cinema São Jorge, em Lisboa. Ficou prometido, numa sala a necessitar urgentemente de ar condicionado e de cadeiras novas, de que haverá nova edição para o ano - espera-se que com legendagem a sério. Eu fui ver o neozelandês "Black Sheep", que encerrou o evento, logo a seguir à curta realizada pelo brasileiro Ivan Cardoso e protagonizada pelos participantes do workshop.

"Black Sheep" é um profundo gozo. A "Os Pássaros" de Hitchcock, aos filmes de zombies, vampiros e lobisomens, aos ambientalistas e aos vegetarianos, aos clichés useiros deste género de cinema. Enfim, a tudo o que deu na telha ao realizador e argumentista. Para nosso estado de graça...

Henry Oldfield apanhou um valente susto em criança provocado pelo seu irmão Angus que o traumatizou para a vida: é incapaz de conviver com ovelhas. Quinze anos depois, ainda em terapia, resolve regressar às raízes. Entretanto, um casal de ambientalistas vegetarianos tenta recolher provas de que o laboratório de Angus, agora um proeminente criador de ovelhas, está a produzir em massa bichos geneticamente modificados. E estão mais que certos: basta uma das "provas" para se certificarem de que o Mundo está prestes a... balir.

Para que conste, os efeitos especiais deste "Black Sheep" foram maquinados pela mesma empresa que "emprestou" os seus conhecimentos à trilogia de "Senhores dos Anéis". Portanto, se estão à espera de efeitos visuais ao estilo "troma", desenganem-se. As ovelhas mutantes e sanguinárias estão maquiavelicamente assustadoras, e o espectáculo é "gore" no verdadeiro sentido da palavra.

O argumento, simples e linear, não é a mais valia do filme - e nem sequer os actores que, apesar de alguma piada, parecem amadores. Mas conseguir um pulo da cadeira e uma gargalhada em simultâneo não é tarefa fácil. De tal modo, que quase nos sentimos idiotas pelo arrepio na espinha perante espectáculo tão bizarro - e nojento. Algumas da opções de quem urdiu a história são circunstanciais e demasiado convenientes, é um facto, mas na realidade, uma vez cosida esta manta de trapos, temos um dos mais divertidos espectáculos do cinema de terror/humor dos últimos anos. Como frisou o organizador do MoteLx, os filmes do certame são obras que raramente chegam ao circuito comercial, por não "serem adolescentes a matar adolescentes". Neste caso, são ovelhas a matar homens e só esta ideia peregrina merecia ser vista com mais atenção, e por mais pessoas. 3 estrelitas



Horror


Fechou mais uma votação Movies: Confidential. O resultado não deixa margens para dúvidas: com 43% dos votos, "O Exorcista", de William Friedkin, perdura como o filme mais assustador de todos os tempos. Não é um feito inédito: em revistas cinéfilas, é quase certo ocupar o pódio em votações do género.

Certo é que, mais de 30 anos volvidos, a atmosfera gélida e psicologicamente intensa da obra protagonizada pela pequena Linda Blair e pela veterana Ellen Burstyn continua a fazer escola, sem nunca ter sido eficientemente igualada - talvez porque Friedkin exigiu mais dos actores e da cenografia quando hoje se privilegia o trabalho das grandes empresas de efeitos especiais.
Seguem-se, na escolha dos leitores, "The Shining", de Stanley Kubrick, o primeiro episódio da desequilibrada saga "Pesadelo em Elm Street", de Wes Craven e "Evil Dead", de Sam Raimi, todos com 18% dos votos. "O Silêncio dos Inocentes", de Jonathan Demme, ocupa o terceiro lugar. Curiosamente, nem "O Tubarão" nem "The Thing", de John Carpenter, conseguiram alcançar um único voto, quando figuram invariavelmente em listas deste tipo. "Poletergeist", "Aliens: o Recontro Final" e "Saw" ficaram com apenas 6% dos votos.

Thursday, September 6, 2007

Bob Thornton e Kim Basinger juntos


Depois de "American Psycho" e "Regras da Atracção"... "The Informers", o novo filme inspirado em mais uma obra do polémico autor Bret Easton Ellis. Com Billy-Bob Thornton e Kim Basinger, numa história situada em Los Angeles, em 1983. Um executivo da indústria cinematográfica, a sua mulher, a sua amante, estrelas rock e um vampiro são obrigados a conviver na sua busca pela juventude eterna. Para já, só mesmo o poster (brilhante).

Promoção anti-balas: "Shoot'em Up"


É inacreditável o que se faz actualmente para promover um filme. Ora vejam o que se produziu propositadamente para publicitar "Shoot'em Up", realizado por Michael Davis, com Clive Owen, Paul Giamatti e Monica Bellucci, que estreia hoje nos Estados Unidos...


Monday, September 3, 2007

De Palma mais polémico que nunca


"Redacted", o novo e polémico filme de Brian de Palma aclamado no Festival de Veneza e vaiado pelos americanos conservadores. Consta por aí que esta história sobre a alegada violação de uma adolescente iraquiana por tropas ao serviço de Bush, e o consequente extermínio da sua família, vai fazer História. Eu, se fosse o De Palma, não punha era os cotos em solo americano...

Para já, só há vídeo da longa ovação de pé a que o cineasta teve direito nesta edição do festival italiano.

Sunday, September 2, 2007

Face oculta, e bem oculta (crítica)



"A Face Oculta de Mr. Brooks" é um dos mais intrigantes e bem urdidos "thrillers" dos últimos anos. Esta história sobre um serial-killer empático e com um certo charme intelectual - Hannibal Lecter será o seu paradigma, Tom Ripley no mesmo nível - ganha por subentender mais do aquilo que mostra.

Uma coisa é certa: sai-se da sala de cinema com um turbilhão de questões e quanto mais tentamos juntar as pontas, mais nos atolamos no lodo. Será que é assim tão evidente que a filha de Earl Brooks herdou a sede de morte do seu pai? Terá ela assassinado o colega de liceu? A que imagem corresponde Marshall, o alter-ego de Brooks: será uma simples representação do seu pensamento ou do seu pai? Terá ele realmente parado dois anos, ou terá assassinado nesse hiato vestindo outras personagens ("matei de muitas outras formas", diz ele no final)? Terá ele apenas prazer no que faz ou sofre do distúrbio de personalide múltipla? Seja qual for a resposta, nada disto é comprovável: a história é contada através da mente tortuosa de Brooks e seja qual for o pensamento, nada nos garante que seja verdadeiro.

Como primeiro episódio de uma trilogia, é provável que muitas das dúvidas sejam desfeitas num próximo capítulo. Mas, até lá, o filme de Bruce A. Evans deixa-nos a matutar. E se para muita gente parece ser óbvio o que se mostra, a verdade é que a película deve ser analisada nas entrelinhas e assim como Brooks muda de direcção como quem despe uma camisa, também nós deveremos colocar em causa aquilo que nos é sugerido como tendo acontecido. Repito: praticamente tudo o que vemos é-nos dito por Earl Brooks e pelo seu demoníaco "grilo falante", Marshall.

Como em qualquer "thriller", há falhas. Os subplots que envolvem a personagem de Demi Moore, uma polícia com um trajecto pessoal identificável com o do "serial killer" que persegue, são por vezes inconsistentes, principalmente devido ao "casting" pobre do núcleo da actriz e ao tratamento desleixado das personagens. Por exemplo, o inescrupuloso assassino Meeks assemelha-se mais a um "inofensivo" delinquente de bairro do que ao monstro que nos impingem antes de o conhecermos. Por outro lado, embora as cenas de acção sejam exemplarmente montadas, sente-se alguma falta de atenção nos pormenores. Tal acontece na sequência de tiroteio num corredor às escuras em que as personagens estão literalmente frente a frente sem serem atingidas.

Com este filme, Kevin Costner parece ter renascido das cinzas. O actor imprime a contenção e o perfeccionismo necessários para a construção da sua personagem e é surpreendente a química com o sempre eficaz William Hurt, seu alter-ego. Marg Helgenberger é correcta no papel da esposa de fachada compreensiva, mas subaproveitada. Veremos se a mulher que dá brilho a CSI: Las Vegas "arranca" a sério na sequela. 3 estrelitas

"Saw IV" já tem site


Jigsaw está de volta, mesmo a tempo do Halloween! "Saw IV" estreia a 26 de Outubro nos states. E o site oficial já está disponível aqui.

Rendition


Quando um indivíduo egipcío suspeito de terrorismo desaparece subitamente num voo de África para Washington, a sua mulher norte-americana (Reese Witherspoon) viaja para a capital disposta a desafiar o Governo e a CIA. Simultaneamente, um analista dos serviços secretos (Jake Gyllenhaal) que testemunha o interrogatório pouco ortodoxo a que é sujeito o egípcio numa unidade secreta fora dos Estado Unidos começa a pôr em causa a idoneidade da sua profissão.

Do mesmo realizador de "Tsotsi" (e do muito aguardado "Wolverine"), vencedor do Óscar de Melhor Filme, "Rendition" estreia a 12 de Outubro nos EUA. Também com Meryl Streep e Alan Arkin.


O Escafandro e a Borboleta


Estreia a 11 de Outubro em Portugal "O Escafandro e a Borboleta", o novo filme de Julian Schnabel ("Antes Que Anoiteça", "Basquiat"), que Johnny Depp rejeitou protagonizar por incompatibilidade de horários com a rodagem de mais um episódio da insipiente saga "Pirata das Caraíbas". Uma decisão pouco acertada, na minha opinião - este filme proporcionava-lhe material para Óscar, como podem ver pelo trailer.

Aos 43 anos e no auge da sua carreira profissional, Jean-Dominique Bauby, editor da Elle
francesa, sofreu um acidente vascular cerebral que lhe paralisou o corpo inteiro… excepto um olho, e a mente. Prémio para Melhor Realização no Festival de Cannes de 2007.

Wednesday, August 29, 2007

Capacete Dourado


A inspiração:
A história do Capacete Dourado, a história de Jota e Margarida, foi inspirada numa notícia de jornal, a propósito de um casal de adolescentes da zona rural de Guimarães, no norte de Portugal, que se tentou enforcar numa ponte, desesperados pela proibição do namoro por parte da família da rapariga (o rapaz era de famílias humildes, tinha abandonado os estudos e trabalhava como mecânico; a rapariga pertencia a uma família de pequenos proprietários rurais). A rapariga morreu e o rapaz salvou-se, porque a corda partiu. O assunto só chegou à imprensa nacional porque o rapaz era maior de idade e foi julgado por homicídio involuntário.

A história:
Negro da noite, uma estrada mal iluminada, motos em acção brincam com o perigo: um grupo
de adolescentes desafia a morte num cruzamento. Jota é o líder do grupo, inclassificável, vive em permanente conflito com tudo e todos. Não consegue parar. A sua disputa com a vida passa-se numa pequena cidade de província subjugada pela rotina dos pequenos conflitos, dos pequenos poderes e das pequenas traições. A sua forma de testar os limites, mais do que uma atitude de rebeldia, é um confronto com o horizonte do futuro que o aguarda. O seu destino não segue linhas rectas a não ser as do asfalto. É então que aparece Margarida. Jota não tem interior, Margarida não tem exterior. Apesar disso, ou por isso mesmo, eles encontram-se. O que poderão fazer? Apenas seguir em frente, mesmo que tudo esteja contra eles. O amor é para ser vivido.

De Jorge Cramez, com Eduardo Frazão, Ana Moreira, Rogério Samora, Alexandre Pinto. Estreia a 20 de Setembro.

Fonte: Atalanta Filmes

Tuesday, August 28, 2007

Cri-ti-couille (Ratatui, a crítica)


Esqueçam os peixes, os pinguins e toda aquela bicharada falante que, ultimamente, andava a transformar o cinema de animação em 3D num marasmo criativo. Chegou uma ratazana para desenjoar. "Ratatui", mais uma afirmação de Brad Bird/Pixar como os maiores maestros da actualidade naquele género, vence por conciliar o brilhantismo técnico ao da escrita. Uma mistura deliciosa.

À primeira vista, a história de Remy poderia contribuir para mais um filme ao estilo "À Procura de Nemo" ou "Happy Feet": a busca por alguém ou por um sonho, contrariada por inevitáveis obstáculos. Na forma, serão idênticos. Mas no conteúdo, separam-se. É que, neste caso, o Homem deixa de ser um acessório só visível através dos membros inferiores ou da voz e passa a integrar a acção. E a fábula ganha outra dimensão: a interacção entre humanos e animais é explorada com a mesma intensidade e emoção que outra obra-prima do género - "Babe" -, conquistando a identificação do espectador com a narrativa e com as personagens. É que desta vez, vemo-nos representados. E aquele seria o sonho de qualquer um de nós: possuir a habilidade de comunicar com um animal com capacidades intelectuais equivalentes às nossas, fazendo dele um compincha para todas as ocasiões.

Mas se um porco amestrado não deve ser fácil de controlar e dirigir no set, que tal criar todo um universo por computador? A equipa de Brad Bird - onde se inclui um português, Afonso Salcedo, na iluminação - recriou uma Paris soturna a fazer lembrar a cidade luz do início do século (embora a história decorra na actualidade), com uma minúcia tal que quase nos leva a acreditar que algumas das imagens são reais. Os cabelos, a calçada, os movimentos da motorizada - tudo é detalhado com uma precisão ímpar.

O argumento, uma falha corrente neste tipo de produto cinematográfico, é simples, mas transversal a todos os escalões etários. Bem escrito, com acutilância, humor e sentimento, nunca escorrega para o choradinho. Os "gags" têm um timing perfeito e as duas personagens principais, a ratazana Remy e o desajeitado Linguini fazem lembrar as duplas douradas de Hollywood do tipo Walter Matthau/Jack Lemon. As vozes, correctas, ganham com o tom cavernoso de Peter O'Toole (sublime como o crítico gastronómico Anton Ego) e a diarreia verbal de Janeane Garofalo (a espevitada Colette). Um aviso: não cheguem tarde à sala de cinema ou correm o risco de perder uma pérola chamada "Lifted". 4 estrelinhas... Michelin

Monday, August 27, 2007

Scarlett d'oiro



Pela primeira vez, o resultado de um questionário "Movies: Confidential" surpreende-me. Scarlett Johansson foi considerada, pelos leitores deste modesto blogue, a loira mais sensual que Hollywood já produziu e deu a conhecer ao Mundo, ultrapassando bombas clássicas da Meca do cinema.

A rapariga é gira, não me interpretem mal. Mas, na minha opinião, tem qualquer coisa de pueril ou uma certa imaturidade que a posicionam a léguas de determinadas veteranas de Hollywood. Por outras palavras, e citando alguém, é "um pãozinho sem sal".

Infelizmente, não consigo determinar a idade de quem foi a votos. Provavelmente, para muitos dos cibernautas, Kim Novak será uma artista russa de cabaré da idade da avozinha, Grace Kelly o título de uma canção de Mika e Jayne Mansfield uma actriz europeia de filmes para festivais alternativos. Curiosamente, ou não, nenhuma destas mulheres recebeu qualquer voto.

Ficam os resultados e, em cima, as fotos das três loiraças com maior percentagem nesta votação. Em comum, as poses de profundo deleite, e os lábios carnudos semi-abertos. E o próximo "enquete" deixo para amanhã.

Scarlett Johansson - 29%
Marilyn Monroe - 25%
Kim Basinger - 14%
Sharon Stone - 11%
Uma Thurman - 11%
Michelle Pfeiffer - 3%
Lauren Bacall - 3%
Jayne Mansfield, Kim Novak, Grace Kelly - 0%

Sunday, August 26, 2007

"Mysterious Skin": Cá dentro (crítica)


"Mysterious Skin", um triunfo do cinema independente norte-americano, incomoda, perturba, cola-se-nos à pele e teima em descolar-se. Uma história sobre a perda da inocência, obrigatória para quem está farto das obras acéfalas que povoam as salas portuguesas nesta altura do ano.

Neill McCormick, de oito anos, é seduzido e abusado sexualmente pelo seu treinador de basebol, em Hutchinson, Texas. Aquela circunstância empurra-o para uma espiral destrutiva: aos 15 anos, começa a prostituir-se, sem que a mãe alcoólica e alienada conheça esta vida dupla. Brian, da mesma idade, acorda na cave da sua casa, a sangrar do nariz. Eclipsa aquelas cinco horas da sua vida, e acredita durante anos que foi abduzido por extra-terrestres. Na busca pela verdade, Brian decide reconstituir aqueles momentos decisivos, conduzindo-se a Neill. O encontro entre ambos, já na adolescência, vai mudar as suas vidas.

Filmado cronologicamente, de anos a anos, meses a meses, "Mysterious Skin" é uma história de duas reacções sobre o mesmo evento. Embora aparentemente díspares, uma mais fantasiosa, outra realista, uma mais sexual, outra assexuada, ambas causam o mesmo dano: aqueles rapazes são incapazes de direccionar a sua vida para algo de frutuoso, e a ferida está permanentemente aberta.

Complexo e emocionalmente desafiador - o espectador vê-se a oscilar entre a repulsa e a compaixão -, este drama de personagens surte o efeito sugerido pelo seu título: a pele é apenas um invólucro que esconde mistérios internos, segredos, cicatrizes, conflitos sem solução. E essas mazelas são capazes de controlar o rumo da nossa vida. "Quem me dera conseguir apagar parte do passado", desabafa uma das personagens.

"Mysterious Skin" não é fácil de digerir. Por isso, aconselha-se para este filme de Gregg Araki uma maturidade suficiente para suportar com a ligeireza possível sequências de abuso sexual de menores, prostituição masculina, violação ou diálogos perversos. Não são gratuitos, mas necessários. Nunca explícitos, sempre sugestionados. Mesmo assim, não é fácil para muita gente, a atestar pelas reacções idiotas na sala de cinema onde assisti a este filme. 4 estrelitas


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