Tuesday, April 24, 2007

Reflexões sobre "O Meu Tio"


O pequeno Gerard Arpel só encontra felicidade quando sai da redoma do seu bairro asséptico para a zona da cidade onde a limpeza está a cargo de um homem que facilmente se distrai com conversa, onde os cães vasculham o lixo, onde as crianças da sua idade apostam a distracção alheia em troca de coscorões com duas camadas de geleia e açúcar. E onde vive o seu tio, monsieur Hulot.

A casa de Gerard é uma espécie de vivenda com dois olhos (e os seus pais o par de pupilas), fria, tecnológica, com um jardim perfeitamente ordenado coroado por uma monstruosa fonte em forma de peixe, só ligada para ser exibida a vizinhos burgueses. A do seu tio, acessível através de uma escadaria labiríntica, está degradada e tem um canário que canta ao ritmo do chiar da janela. Desempregado, o distraído Hulot é um dia contratado para trabalhar na igualmente esterilizada empresa do cunhado, fabricante de tubos de plástico, que nutre por ele uma certa inveja por este conseguir dar ao filho aquilo que os seus gadgets e o seu poder financeiro nunca conseguirão oferecer: afecto.

Vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, esta obra-prima de Tati (1958) é tão prenhe de detalhes que dificilmente conseguiremos detectar todos - ou sequer parte dele - ao primeiro visionamento. Em cada plano, ao fundo, pode estar a acontecer algo que nos escape. Não que seja essencial para entrar naqueles dois mundos díspares da mesma cidade, mas porque queremos desde o primeiro minuto absorver por completo a sua riqueza cenográfica, artística e humana.
O meticuloso Tati é, em todos os aspectos da sua arte, de uma precisão impressionante: nos "timings", nos gestos, nos figurinos, nos cenários, e até na apresentação original da ficha técnica. De tal forma, que o seu filme, como resultado final e analisado num todo, se assemelha a uma máquina. Tão bem oleada como as que dominam a casa do pequeno Gerard.

Apesar deste perfeccionismo, Tati nunca é maçador. Principalmente, porque a sua história, em tom de sátira a uma sociedade materialista e parca em afecto, é tão actual que muito facilmente nos deixamos levar. As personagens são tão ricas (material e emocionalmente), a tecnologia tão estilizada, os décors tão estranhamente familiares (tenho a sensação de já ter visto aqueles sofás no Museu do Design), e as reminiscências do cinema mudo tão presentes (os diálogos resumem-se ao indispensável, privilegiando-se a música e o som ambiente), que damos por nós a considerar estar perante uma obra anacrónica. Que, de resto, não é mais do que um detalhe para este puro sangue da comédia.

Em exibição/reposição no Nimas, Lisboa.

2 comments:

Nuno Cargaleiro said...

É um filme bastante giro e comovente até!... Gostei bastante, e para mim foi um agradável surpresa!... Quero ver se coloco hoje a minha análise no meu blog!... Sabias que hoje vai existir uma mesa redonda sobre o filme? Não sei em qual sessão será!...

Anonymous said...

Agora, toca a ver "As Férias do sr. Hulot" e os outros...

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