Thursday, May 17, 2007

Neva dentro deles


Em "Climas", do turco Nuri Bilge Ceylan, há silêncios embaraçosos à mesa, pessoas que fumam ao terminar a refeição, camas desmazeladas. Por outras palavras, este filme está prenhe de vida, a vida real de todos os dias.

Nesta obra vencedora do prémio FIPRESCI em Cannes, paira o fantasma de Wong Kar Wai, na sua forma suave, escorreita e quase muda de contar histórias de amor. O olhar perdido e solitário de Ceylan, igualmente protagonista, é um espelho de um errante Tony Leung, actor que encabeçou o elenco de duas obras maiores do cineasta de Hong Kong, "Disponível Para Amar" e "2046". E, assim como nos filmes de Kar Wai, também "Climas" exige do espectador uma absoluta disposição e sobriedade.

Contudo, a tarefa que nos é proposta não é árdua, pela simplicidade da história e pela natural afeição que sentimos por personagens tão palpáveis. E por uma história que poderia ser a de qualquer um de nós. Num Verão em Kas, na costa mediterrânica da Turquia, Isa, professor universitário a dobrar os 50, vive uma relação estafada e moribunda com a jovem Bahar, directora artística em séries televisivas de segunda categoria que, nos vintes, se comporta de forma juvenil. A diferença de idades serve de pretexto para que a união termine sob o calor tórrido e para que ele regresse aos braços e ao sexo selvagem proporcionado por uma antiga namorada. No entanto, Isa não esquece Bahar e persegue-a ao Leste da Turquia, onde esta se encontra em filmagens, com o intuito de reatar a relação. Terá esta conserto?

O clima surge no título e ao longo da história como uma metáfora que ilustra o comportamento cíclico do ser humano. Assim como a Primavera sucede ao Inverno e o Outono ao Verão, assim como a nuvens encobrem e desaparecem, como o Sol faz suar e se eclipsa, também o homem é capaz de fazer seguir a sua vida numa girândola, numa eterna sucessão de erros, perdão e redenção. Podemos achar um dia que mudamos para descobrir nos momentos seguintes que tudo permanece igual. E podemos igualmente acreditar que queremos recuperar algo, para descobrir de imediato que o que está perdido nem sequer se transforma.
Com uma minuciosa atenção aos detalhes, ao som, à iluminação e aos planos, Ceylan oferece uma obra nostálgica e madura com um elenco praticamente constituído pela sua familia. Quase cremos que esta história é uma catarse para o casal - que o é tanto no filme como na vida real. Seja ou não, este tratado sobre as relações humanas que escorre do interior das personagens para o exterior, com recurso a muito pouco diálogo, é uma das mais belas obras em cartaz. 4 estrelitas

2 comments:

Nuno Cargaleiro said...

Excelente crítica!... Ainda não tinha ouvido falar muito sobre este filme, tanto que nem me recordava vivamente da presença deste filme em cartaz. Contudo, após ler a tua crítica, que desenvolve o conceito da trama sem a revelar por completo, devo dizer que fiquei com curiosidade em vê-lo!

Bracken said...

Tens mesmo de ir ver, vale muito a pena. É lento e melacólico, portanto convém assistires num dia com o ânimo nas alturas.
Abraço,
Bracken

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