Thursday, May 17, 2007

Recordando "Feios, Porcos e Maus"


O temperamental e mão-de-vaca Giacinto Mazzatella (Nino Manfredi) vive com a sua numerosa e interesseira família numa barraca de um bairro de lata dos arrabaldes de Roma. Aposentou-se prematuramente por ter ficado cego de um olho com um pingo de cal viva, acidente pelo qual recebeu uma choruda indemnização - um milhão de liras -, que guarda nos mais insuspeitos buracos do casebre, para que mãe, mulher, filhos, cunhados, noras e netos não lhe surripiem a fortuna. Mas quando abriga na sua cama uma prostituta pneumática, a única que o compreende e se está a borrifar para o dinheiro, a despeitada mulher vê ali a sua oportunidade: assassinando o marido, a família fica com o caminho livre para se abarbatar ao milhão.

Lembro-me de ser pequenito e de ter visto "Feios, Porcos e Maus" meio às escondidas - assim como o "1900", de Bernardo Bertolucci, transmitido em duas partes pela RTP, têm memória disso? Hoje risíveis, as cenas de sexo ou de corpos a roçarem-se provocavam-me na altura o desconforto próprio da ingenuidade infantil.

Vinte anos volvidos, comprei o DVD desta obra do mestre da comédia à italiana Ettore Scola, para segui-lo com olhos de adulto. Confesso: o filme marcou-me numa determinada época e estava receoso de apanhar uma valente desilusão. Ainda por cima, decidi premir o play numa noite em que o João Pestana ameaçava atacar mais cedo do que o costume. Felizmente, este outro ícone da nossa infância levou uma tremenda bofetada: o filme de Scola é tão rico em detalhes, tão burlesco e tão surrealisticamente cómico que não houve forma de pregar olho.

Talvez não haja na História do cinema título tão apropriado como "Feios, Porcos e Maus". As personagens - as mulheres de bigode e buço, os homens promíscuos e sujos, e ambos os sexos pouco escrupulosos - compõem um retrato da miséria humana. Não só da miséria material, mas de como esta se pode elevar ao ponto de ofuscar as nobres ligações familiares e sociais. Não há heróis nesta história e, a existir uma categoria de vilão, só poderá ser atribuída ao vil metal.

Por outras palavras, o que Scola nos quer dizer é simples: não é o dinheiro que endireita quem nasce torto. E a ganância não é um exclusivo dos ricos. Nesta crítica social, exemplarmente filmada e escrita, há qualquer coisa de muito actual: faz-me lembrar aquelas famílias de bairros de lata que, sabemos pelas notícias, recebem a chave de um apartamento das mãos do autarca e plantam couves na banheira e deixam ninhadas de pintos cirandar pela sala. É claro que esta não é uma regra, mas outra lição que aprendemos de "Feios, Porcos e Maus" é que a pobreza e a ignorância andam por vezes de mão dadas. E quando tal acontece, não há dinheiro que compre a dignidade humana.

3 comments:

Luís Alves said...

Este é um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Vi-o a primeira vez em puto, e agora sempre que preciso de ânimo basta pôr o dvd para me desmanchar a rir com as desventuras do averento Jacinto, da sua família ganaciosa e da sua muito especial mãezinha:)
Abraço Bracken

Bracken said...

Pelos vistos, não houve puto da nossa geração que não tivesse visto o "Feios, Porcos e Maus". Lembro-me que, aos olhos dos meus pais, era daqueles filmes proibidos a menores, tipo "O Império dos Sentidos". :)

Luís Alves said...

devia ser por cenas como a do velho jacinto a "declarar" o seu "amor paternal" à sua nora na casa de banho/frigorífico, ou do do nando a "ajudar" a cunhada a lavar o cabelo...lol

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