Friday, June 15, 2007

Tributo: "Amor Cão"


No currículo de Alejandro González Iñarritu constavam apenas uma curta-metragem e um telefilme quando explodiu para o Mundo com "Amor Cão" ("Amores Perros"), em 2000. Este filme definiu um estilo pessoal para as obras seguintes, inspirou cineastas e argumentistas norte-americanos e despertou o interesse por uma certa geração de realizadores mexicanos, que inclui Guillermo Del Toro e Alfonso Cuáron, dois conterrâneos a jogar na mesma divisão. No entanto, nenhum destes é capaz de captar a crueza da realidade com tamanha objectividade.

"Amor Cão" é um cruzamento de histórias, com início num acidente de viação e onde, aparentemente, o único ponto comum é o amor exarcebado por canídeos. Um rapaz sem condições financeiras coloca o seu pitbull a render em lutas clandestinas, para ajudar a sustentar o sobrinho e poder fugir com a cunhada; uma manequim de sucesso, paralisada na sequência de um desastre, vê o seu caniche desaparecer sob o soalho da casa para onde se mudou com o amante e a relação a desabar entre a busca pelo cão e os dias depressivos em cadeiras de rodas; um sem-abrigo misterioso, antigo assassino a soldo, vive rodeado por uma matilha de cães até entender que a vida não faz sentido distante da filha.

É na solidez com que cruza estes três "plots" que Iñarritu se revelou não só como uma excelente realizador, como um brilhante contador de histórias. O anacronismo em que estas se alinham - só mais tarde se entende a relação entre elas -, é essencial para manter o espectador na expectativa de compreender uma associação nunca evidente nos primeiros minutos. Admito que as minhas sequências favoritas são as que envolvem a modelo, e o seu desespero pelo cão que se enfia por tempo indeterminado pelo chão. É no retrato da futilidade daquela mulher, do seu contexto e das suas efémeras aspirações - uma crítica social também presente nos restantes segmentos - que o realizador demonstra a sua versatilidade em abordar diferentes ambientes, uma espécie de tubo de ensaio para o seu magistral "Babel". Algo que o argumentista e realizador sobrevalorizado Paul Haggis jamais conseguiu atingir com o seu "Crash: Colisão", tão óbvio e descarado que chega a ser constrangedor (não sei se repararam, mas não há personagem que nos primeiros 20 minutos não profira um comentário racista, não vá o espectador alienar-se do assunto do filme).

É também em "Amor Cão" que Iñarritu dá oportunidade a Adriana Barraza, actriz injustiçada na última cerimónia dos Óscares. E é em "Amor Cão" que este Robert Altman dos nossos dias, soberbo na montagem e na diversidade, prova que há mais e bom cinema para além do país que lhe faz fronteira. 5 estrelitas

2 comments:

Luís Alves said...

o melhor filme sul-americano que já vi....ok...há outro Cidade de Deus...para mim ficam empatados os dois...
abraço

Bracken said...

Embora incomparáveis, acho que estão ao mesmo nível. Mas, em termos de originalidade de argumento, o "Amor Cão" levava a bicicleta! Grande abraço, Luís.

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